
A condição exige diagnóstico e intervenção rápidos para minimizar riscos e proteger o desenvolvimento neurológico do recém-nascido.
A chegada de um bebê é um dos momentos mais esperados pela família. Em algumas situações, a transição para a vida fora do útero enfrenta um obstáculo crítico: a falta de oxigênio.
Em 2022, o Ministério da Saúde estimou que, no Brasil, aproximadamente 20 mil crianças nasceriam com falta de oxigenação no cérebro em um período de 12 meses.
Essa complicação, conhecida clinicamente como asfixia perinatal, é uma emergência médica que demanda ação imediata da equipe de saúde.As causas de asfixia perinatal incluem problemas com a placenta, o cordão umbilical, fatores de saúde materna ou complicações no trabalho de parto.
O que é exatamente a asfixia perinatal?
A asfixia perinatal é uma condição que ocorre quando o feto ou o recém-nascido não recebe oxigênio (hipóxia) ou fluxo sanguíneo (isquemia) suficientes para os órgãos vitais, especialmente o cérebro. É a interrupção do fornecimento de oxigênio ou fluxo sanguíneo para o bebê que pode ocorrer antes, durante ou logo após o parto.
A condição impede o bebê de respirar normalmente e pode ser identificada por dificuldade respiratória e pontuações baixas no teste Apgar.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) a considera uma das principais causas de mortalidade neonatal no mundo. A rapidez no diagnóstico e na intervenção é determinante para o prognóstico do bebê, pois a falta de oxigênio pode levar a lesões celulares em múltiplos órgãos.
Quando a asfixia perinatal pode ocorrer?
O termo "perinatal" refere-se ao período que vai desde a 22ª semana de gestação até os primeiros dias de vida após o nascimento. Por isso, a asfixia pode se instalar em três momentos distintos:
- Antes do parto (intraútero): problemas na placenta ou no cordão umbilical podem comprometer a oxigenação fetal.
- Durante o trabalho de parto: complicações como um parto prolongado ou descolamento de placenta podem interromper o fluxo de oxigênio.
- Logo após o nascimento: dificuldades na adaptação respiratória do bebê à vida extrauterina podem levar à asfixia.
Quais são as principais causas da asfixia perinatal?
Diversos fatores podem levar à interrupção do suprimento de oxigênio durante o nascimento, estando geralmente associados a condições maternas, placentárias, umbilicais ou do próprio feto. Entre os fatores maternos, destacam-se a hipertensão arterial, como na pré-eclâmpsia, a diabetes gestacional descontrolada, infecções graves, anemia severa e problemas cardiorrespiratórios.
Também podem ocorrer complicações relacionadas à placenta, como o descolamento prematuro, a placenta prévia com sangramento e a insuficiência placentária, situação em que a placenta não desempenha suas funções de forma adequada.
Problemas envolvendo o cordão umbilical, como o prolapso (quando o cordão se exterioriza antes do bebê), a presença de nós verdadeiros ou a compressão durante o parto também podem comprometer a oxigenação fetal.
Dificuldades no trabalho de parto, como sua duração prolongada (distócia), a ruptura uterina ou o posicionamento inadequado do bebê, também contribuem para esse quadro.
Como a equipe médica identifica a asfixia no recém-nascido?
O diagnóstico é primariamente clínico, baseado na avaliação do bebê logo após o nascimento. A equipe da sala de parto está treinada para reconhecer os sinais de sofrimento e agir rapidamente.
Sinais visíveis ao nascer
Um recém-nascido que sofreu asfixia pode apresentar sinais claros, como:
- Coloração da pele: cianose (pele azulada) ou palidez acentuada.
- Tônus muscular: hipotonia, ou seja, o bebê parece "mole", flácido, com poucos movimentos.
- Resposta a estímulos: ausência de choro ou resposta fraca à estimulação.
- Respiração: respiração irregular, ofegante ou ausente (apneia).
A importância da escala de Apgar
A escala de Apgar é uma avaliação rápida realizada no primeiro e no quinto minuto de vida do bebê. Ela analisa cinco parâmetros: frequência cardíaca, esforço respiratório, tônus muscular, irritabilidade reflexa e cor da pele.
Uma pontuação de Apgar muito baixa (geralmente abaixo de 3) no quinto minuto, aliada à dificuldade para respirar, é um forte indicativo de que o bebê passou por um evento de asfixia, que é a falta de oxigenação ou circulação sanguínea próxima ao nascimento.
Quais as possíveis consequências para o bebê?
A principal e mais temida consequência da asfixia perinatal é a lesão cerebral. Quando o cérebro não recebe oxigênio, suas células começam a sofrer danos, uma condição chamada de Encefalopatia Hipóxico-Isquêmica (EHI).
Níveis de gravidade: leve, moderada e grave
A EHI é classificada em três estágios, dependendo da severidade dos sintomas neurológicos apresentados pelo bebê nas primeiras horas e dias de vida. Bebês com EHI leve podem se recuperar sem sequelas, enquanto casos moderados a graves têm um risco maior de desenvolver complicações a longo prazo.
Impactos a longo prazo
As sequelas neurológicas são a maior preocupação. A asfixia perinatal pode levar a alterações neurológicas persistentes, tornando o acompanhamento médico a longo prazo fundamental. A extensão do dano depende da duração e da gravidade da falta de oxigênio. Entre os possíveis impactos, estão:
- Paralisia cerebral.
- Atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor.
- Dificuldades de aprendizado e déficit de atenção.
- Convulsões (epilepsia).
- Deficiências auditivas ou visuais.
Vale dizer que muitos bebês que passam por um episódio de asfixia, especialmente os casos leves, podem não apresentar sequelas. O acompanhamento médico é essencial para monitorar o desenvolvimento. A falta de oxigênio durante a asfixia perinatal pode causar lesões cerebrais, que exigem monitoramento médico contínuo para prevenir sequelas permanentes no desenvolvimento da criança.
Como é feito o tratamento para proteger o cérebro do bebê?
Uma vez identificada a asfixia perinatal com suspeita de EHI, o tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível, idealmente nas primeiras seis horas de vida. Diante da possibilidade de lesões cerebrais, é fundamental que o suporte médico seja imediato. O objetivo é neuroproteção, ou seja, minimizar os danos cerebrais.
O papel da hipotermia terapêutica
A hipotermia terapêutica é hoje o tratamento padrão-ouro para bebês com EHI moderada a grave. As intervenções imediatas são essenciais, e a hipotermia é uma das principais estratégias para proteger o cérebro do bebê, mitigando o risco de danos mais graves. A técnica consiste em resfriar a temperatura corporal do recém-nascido para cerca de 33,5 °C por 72 horas, de forma controlada em uma UTI Neonatal.
Esse resfriamento diminui o metabolismo cerebral, reduzindo a inflamação e a morte celular que ocorrem após a lesão inicial por falta de oxigênio.
É possível prevenir a asfixia perinatal?
Nem todos os casos podem ser prevenidos, mas um acompanhamento pré-natal de qualidade é a principal ferramenta para reduzir os riscos. Identificar e controlar fatores de risco maternos, como hipertensão e diabetes, é fundamental.
Durante o trabalho de parto, o monitoramento contínuo da frequência cardíaca fetal e do bem-estar do bebê ajuda a equipe médica a identificar sinais de sofrimento precocemente e, se necessário, intervir com uma cesariana de emergência. A presença de uma equipe de reanimação neonatal bem treinada na sala de parto também é decisiva.
O que esperar do acompanhamento após a alta?
Bebês que passaram por um evento de asfixia perinatal, especialmente aqueles com EHI, necessitam de um acompanhamento multidisciplinar após a alta hospitalar. Isso é essencial para monitorar o desenvolvimento e intervir precocemente caso surja alguma dificuldade.
A equipe de acompanhamento pode incluir neuropediatra, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. O objetivo é oferecer todos os estímulos e suportes necessários para que a criança possa atingir seu máximo potencial.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.
Bibliografia
asphyxia at west Oromia tertiary hospitals, Ethiopia, 2022. BMC Pediatrics, [S. l.], p. 1-13, set. 2023. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s12887-023-04313-6. Acesso em: 09 de abril de 2026.
MENSAH, M. K. et al. Mapping research evidence on perinatal asphyxia within the sustainable development era in sub-Saharan Africa: a scoping review protocol. Systematic Reviews, [s. l.], ago. 2022. Disponível em:https://link.springer.com/article/10.1186/s13643-022-02058-4. Acesso em: 09 de abril de 2026.
SACCO, M. A.; AQUILA, I. Post mortem molecular biomarkers of asphyxia: a literature review. International Journal of Molecular Sciences, [s. l.], v. 25, n. 21, p. 11607, out. 2024. Disponível em: https://www.mdpi.com/1422-0067/25/21/11607. Acesso em: 09 de abril de 2026.
TUISKULA, A. et al. Profile of minor neurological findings after perinatal asphyxia. Acta Paediatrica, Oslo, nov. 2021. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/apa.16133. Acesso em: 09 de abril de 2026.
Ministério da Saúde. Asfixia perinatal é a terceira causa de morte neonatal no mundo, dez. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/dezembro/asfixia-perinatal-e-a-terceira-causa-de-morte-neonatal-no-mundo. Acesso em: 09 de abril de 2026.
Agendar Consulta
