Terapia Intensiva

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O que é a síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA)?

Entenda o que é a síndrome do desconforto respiratório agudo, quais os sintomas e tratamentos disponíveis para essa inflamação pulmonar.
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Equipe Santa Joana - Equipe Santa Joana Atualizado em 24/04/2026
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Uma emergência pulmonar que exige cuidados intensivos e um entendimento profundo para o tratamento e a recuperação.

De repente, uma dificuldade para respirar que piora rapidamente. O ar parece não chegar aos pulmões, e cada inspiração é um esforço exaustivo. Essa sensação de angústia respiratória, que pode surgir após uma infecção severa ou um acidente, é um dos primeiros sinais de que algo muito grave está acontecendo no sistema respiratório.

Em alguns casos, essa piora rápida evolui para a síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), uma condição séria que exige atenção médica imediata e especializada.

O que é a síndrome do desconforto respiratório agudo?

A síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA ou SARA) é uma forma grave de insuficiência respiratória que se desenvolve rapidamente. Ela se caracteriza por uma inflamação difusa e intensa nos pulmões, que danifica os alvéolos (pequenas bolsas de ar onde ocorre a troca de oxigênio e gás carbônico). Esse dano impede que o oxigênio chegue adequadamente ao sangue, levando a uma condição chamada hipoxemia.

Essa inflamação pulmonar severa impede a oxigenação eficaz do sangue, o que aumenta drasticamente o risco de morte e a necessidade de ventilação mecânica. A inflamação intensa libera substâncias que não só dificultam a troca gasosa, mas também podem afetar o funcionamento de outros órgãos vitais do corpo, podendo levar à falência de múltiplos sistemas e exigir suporte avançado por aparelhos.

A SDRA é uma condição que pode ser fatal e requer tratamento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Quais são as causas da síndrome do desconforto respiratório agudo?

A SDRA não é uma doença em si, mas sim uma complicação grave de outras condições médicas. Ela pode ser desencadeada por lesões pulmonares diretas ou por doenças que afetam o corpo todo, gerando uma resposta inflamatória sistêmica que acaba atingindo os pulmões.

Fatores de risco e desencadeadores

Os principais fatores que podem levar ao desenvolvimento da SDRA incluem:

  • Sepse: Uma infecção generalizada e grave na corrente sanguínea é a causa mais comum de SDRA.
  • Pneumonia grave: Infecções pulmonares bacterianas ou virais severas, incluindo as causadas pelo vírus da COVID-19. É importante notar que a pneumonia é a principal causa da síndrome do desconforto respiratório agudo, gerando uma inflamação severa que impede a oxigenação e exige ventilação mecânica.
  • Trauma grave: Acidentes com lesões extensas ou contusão pulmonar direta podem desencadear a síndrome.
  • Aspiração de conteúdo gástrico: A inalação acidental de alimentos, líquidos ou vômito para os pulmões.
  • Pancreatite aguda: Inflamação grave do pâncreas que pode levar a uma resposta inflamatória sistêmica.
  • Transfusão maciça de sangue: Em raras ocasiões, grandes volumes de transfusão podem causar uma lesão pulmonar associada à transfusão.
  • Queimaduras extensas: Lesões graves por queimaduras podem desencadear uma resposta inflamatória generalizada.

Como a SDRA afeta os pulmões?

Na SDRA, o principal problema é a lesão na barreira que separa o ar dos vasos sanguíneos nos pulmões. Essa barreira, formada por células que revestem os alvéolos e os pequenos vasos sanguíneos, é fundamental para a troca gasosa. Quando ela é danificada pela inflamação, fica mais permeável, permitindo o vazamento de líquido e proteínas para dentro dos alvéolos.

Entenda a fisiopatologia da lesão pulmonar

Este acúmulo de líquido, conhecido como edema pulmonar não cardiogênico (ou seja, não causado por problemas cardíacos), preenche os espaços que deveriam estar cheios de ar. Consequentemente, os alvéolos não conseguem mais realizar a troca de oxigênio de forma eficiente. O resultado é a hipoxemia, uma grave redução dos níveis de oxigênio no sangue, mesmo quando o paciente recebe oxigênio suplementar. Isso compromete a função de órgãos vitais como o coração e o cérebro, tornando a condição extremamente perigosa.

Quais são os sintomas da síndrome do desconforto respiratório agudo?

Os sintomas da SDRA geralmente aparecem de forma rápida, dentro de horas ou poucos dias após o evento desencadeador (como uma infecção ou trauma). Eles indicam uma piora progressiva da capacidade respiratória e incluem:

  • Falta de ar intensa (dispneia): É o sintoma mais marcante, piorando mesmo com repouso.
  • Respiração rápida e superficial (taquipneia): O corpo tenta compensar a falta de oxigênio respirando mais vezes.
  • Tosse: Pode ser seca ou com expectoração.
  • Batimento das asas do nariz: Movimento das narinas ao respirar, indicando esforço.
  • Uso da musculatura acessória da respiração: O paciente utiliza músculos do pescoço e do abdômen para tentar respirar.
  • Cianose: Coloração azulada dos lábios, dedos ou pele devido à baixa oxigenação do sangue.
  • Confusão mental ou sonolência: Em casos mais graves, a falta de oxigênio no cérebro pode causar alterações neurológicas.

É fundamental que qualquer pessoa que apresente esses sintomas, especialmente após uma infecção ou trauma, procure atendimento médico de emergência imediatamente.

Como é feito o diagnóstico da SDRA?

O diagnóstico da SDRA é realizado por uma equipe médica em ambiente hospitalar, geralmente na UTI, por ser uma condição de alta complexidade. Ele se baseia na avaliação clínica do paciente, em exames de imagem e na análise dos níveis de oxigênio no sangue.

Os médicos avaliam o histórico do paciente, os sintomas apresentados e realizam um exame físico detalhado. Exames complementares são essenciais:

  • Radiografia de tórax ou tomografia computadorizada: Revelam opacidades (áreas esbranquiçadas) nos dois pulmões, indicando acúmulo de líquido e inflamação.
  • Gasometria arterial: Mede os níveis de oxigênio e gás carbônico no sangue, confirmando a hipoxemia.
  • Ecocardiograma: Pode ser realizado para descartar que o acúmulo de líquido nos pulmões seja causado por uma insuficiência cardíaca.

Os critérios de Berlim para a SDRA

Para padronizar o diagnóstico e a pesquisa, a comunidade médica internacional utiliza os Critérios de Berlim, que definem a SDRA com base em quatro pontos:

  1. Início agudo: Os sintomas devem ter surgido em até sete dias após o evento desencadeador.

  2. Opacidades bilaterais: As imagens pulmonares (raio-x ou tomografia) devem mostrar acúmulo de líquido em ambos os pulmões, que não pode ser totalmente explicado por outras condições.

  3. Origem não cardiogênica: O edema pulmonar não pode ser explicado por insuficiência cardíaca ou sobrecarga hídrica.

  4. Hipoxemia: Baixos níveis de oxigênio no sangue, mensurados pela relação entre a pressão parcial de oxigênio no sangue (PaO2) e a fração de oxigênio inspirada (FiO2), mesmo com suporte de oxigênio e pressão positiva nas vias aéreas (PEEP ≥ 5 cmH2O).

A gravidade da SDRA é classificada em leve, moderada ou grave, com base nessa relação PaO2/FiO2.

Qual o tratamento para a SDRA?

O tratamento da SDRA é complexo e exige cuidados intensivos em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com monitoramento constante das funções vitais. O principal objetivo é garantir a oxigenação adequada do paciente e tratar a causa subjacente da síndrome.

Ventilação mecânica protetora: o pilar do tratamento

A ventilação mecânica é o suporte fundamental para a maioria dos pacientes com SDRA. É importante que ela seja "protetora", ou seja, utilizada de forma a minimizar danos adicionais aos pulmões já fragilizados. Devido à inflamação pulmonar severa que caracteriza a SDRA e impede a oxigenação, a ventilação mecânica se torna essencial, muitas vezes de forma especializada. Essa abordagem visa proteger os pulmões já comprometidos e é fundamental para salvar a vida do paciente, dada a gravidade da condição. Isso envolve estratégias como:

  • Baixo volume corrente: Fornecer pequenos volumes de ar a cada respiração para evitar distensão excessiva dos alvéolos.
  • Pressão de platô limitada: Manter a pressão nas vias aéreas em níveis seguros para prevenir lesões.
  • PEEP (pressão expiratória final positiva): Aplicar uma pressão contínua no final da expiração para manter os alvéolos abertos e melhorar a troca gasosa.

Outras terapias de suporte na UTI

Além da ventilação mecânica, outras medidas de suporte são essenciais:

  • Tratamento da causa base: Administração de antibióticos para sepse ou pneumonia bacteriana, ou outras terapias específicas para a condição que desencadeou a SDRA.
  • Controle de fluidos: Gerenciamento cuidadoso da hidratação para evitar sobrecarga de líquidos, que pode piorar o edema pulmonar.
  • Sedação e bloqueio neuromuscular: Para alguns pacientes, a sedação profunda e o relaxamento muscular são necessários para que a ventilação mecânica seja mais eficaz e para reduzir o consumo de oxigênio.
  • Nutrição: Suporte nutricional adequado, geralmente por sonda.

A posição prona melhora a oxigenação

Uma estratégia que tem demonstrado grande eficácia em casos de SDRA moderada a grave é a posição prona. Consiste em virar o paciente de bruços. Essa manobra melhora a distribuição do ar e do sangue nos pulmões, recrutando áreas pulmonares que estavam colapsadas e otimizando a oxigenação do sangue. É realizada com a ajuda de uma equipe multidisciplinar treinada para garantir a segurança do paciente.

ECMO: um suporte avançado para casos graves

Em situações de SDRA gravíssima, quando a ventilação mecânica e outras terapias não são suficientes para garantir a oxigenação, pode ser considerada a Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO). A ECMO é uma máquina que age como um pulmão artificial, retirando o sangue do paciente, oxigenando-o e devolvendo-o ao corpo. É um recurso de alta complexidade e utilizado apenas em centros especializados.

É possível se recuperar da SDRA? Quais as sequelas?

A SDRA é uma condição com alta taxa de mortalidade, mas muitos pacientes conseguem se recuperar. A taxa de sobrevivência tem melhorado ao longo dos anos devido aos avanços no tratamento intensivo.

Contudo, a recuperação pode ser longa e desafiadora. Pacientes que sobrevivem à SDRA frequentemente enfrentam sequelas físicas, cognitivas e psicológicas, conhecidas como Síndrome Pós-UTI. Entre as possíveis sequelas estão:

  • Fibrose pulmonar: O tecido pulmonar pode ficar cicatrizado, resultando em dificuldade respiratória crônica.
  • Fraqueza muscular generalizada: A imobilização prolongada e a doença crítica podem levar a uma perda significativa de massa muscular.
  • Dificuldades cognitivas: Problemas de memória, concentração e raciocínio.
  • Distúrbios psicológicos: Depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

A reabilitação, incluindo fisioterapia respiratória e motora, acompanhamento psicológico e nutricional, é fundamental para otimizar a recuperação e melhorar a qualidade de vida dos sobreviventes.

Quando procurar ajuda médica?

A síndrome do desconforto respiratório agudo é uma emergência médica. Se você ou alguém próximo apresentar sinais de dificuldade respiratória intensa, como falta de ar progressiva, respiração muito rápida, coloração azulada da pele ou confusão mental, procure atendimento de emergência imediatamente. A agilidade no diagnóstico e início do tratamento pode fazer toda a diferença no prognóstico.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.

Bibliografia

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